terça-feira, 1 de junho de 2010

Nos intervalos dos meus fracassos, colecionava horas
Segurava pela mão a minha inquieta companhia
Usava entoar mantras que evocassem meus vestígios
Fantasmas de fogo lambiam tais pertences
a tornar irreconhecíveis as formas derretidas
àquele que deliberadamente esculpiu seus heróis em cores de fumaça

Tive a petulância de clamar ao presente, pão e água
quando nem sequer me permiti ver com os ouvidos a correnteza nas pedras
Profetizei ao andarilho que se curioso fosse, acharia
Praticou o que mais sabia: se absteve de sua fisionomia cor de fundo

Encontrou a antítese das horas pingadas
lançando suas vértebras ao choque das ondas
Reservou o melhor lugar para se ser e estar
Assistiu a morte e pariu a vida, pelo menos uma vez

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sobre morrer e nascer e só assim viver

Ouso proclamar o seu nome entre as gentes
Derramar em frascos as verdades
Ressecadas em areia de cheiro e cor
A jamais remoer caducas circunstâncias
Natirmortas de razão altruísta

Que esfacele os meus farrapos, minha sede
Pois não há tempo que se esqueça de minar as forças
Tampouco, resista travestido de sorte zombeteira
Indo e vindo deixa sempre o gosto do nosso gosto
Quando se percebe que tudo apenas resta

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Acróstico tirado de uma notícia de jornal

Transtornado,
Rigorosamente,
Incentivou a
Tragédia
Sua

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

As chaves que fecham e as chaves que abrem

Quase na calmaria surge
Prenunciando o final de um ciclo
A libertar as intempéries,
célebre coadjuvante do encantamento

Acende a sua curiosa luz
A indicar ansiosos destinos
nascidos no olho do redemoinho
ou enfeitiçados pela inércia

Interventor da obra que assiste
Tem a cada final uma tela em preto
Para, inclusive, deixá-la como está

Sobre tijolos, cimento e o tempo

Partiu o menino à experimentar a vida
que já em sua boca sugeria adocicado deleite
Tateou muitas partículas de promessas desnudas
que não lhe escapavam ao julgamento

Imergiu na anorexia lodosa das saudades alheias
Provou do intenso gosto de sua criatura
Sedento por si bebeu de faces esmaecidas
Perdeu-se do hoje pelas mãos do intangível amanhã

(Re)Nasceu da insustentável discórdia entre os deuses
Implodiu o espírito a moldar mosáicos de criança
Deu de comer aos vermes caóticos da criação
ao putrefar as obsessivas investidas ao abismo

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Exorcista de mim

Deveria eu, entao, conhecer a afliçao que se ergue
Despejar doses e mais doses de miraculosas sínteses
Sobrepor-me ao ser humano se sou homem
Ignorar o derradeiro cotidiano se sou vida
Despojar-me da mediocridade se sou carne

Surpreende-me o seu passo à calafrios
Com aquilo que outrora nao sabia ser mais que nódoa
Vem a mim pra ser espelho do que me escapa
Trata a ferro e fogo a oportunidade descabida

O ansiosa humanidade
Sossega suas súplicas
Afoga em copos dágua as projecoes inconclusas
Mensura seus modos a fim de que nao se prenda
Vigia sua cria pra que ela nao devore seus nervos

Pobre fantoche dos seus dedos
A lutar com armas traiçoeiras
Decepa seus membros a cada golpe certeiro
A morrer de subestimar o descaminho

Poema de encarte

Palavra que nunca diz nada
Nunca quis se dizer nada
Desprovida de pretensao alguma
Incapaz de subverter qualquer tendência

Assim, enquanto se repete
Palavra vazia, que seca a boca e corta os lábios
Palavra que de tao sólida se desmancha
Iludida pelos movimentos que jamais causou

Triste palavra que cabe em quatro versos
Subordinada às intencoes precedentes
Doce palavra que ama o amador
Rude carrasco de sentidos parciais

Migalha de pao que satisfaz por hora
Comida de pombos a quem o banquete sacia
Água mole que em pedra quente evapora
Moribundo teimoso que clama por vida

sábado, 18 de outubro de 2008

De que tamanho é?

E voce cheio de argumentos aprisionados em sua liberdade
Lançando aos quatro ventos falsos milagres pressupostos
Pra hoje ser so a sucessao de marasmos de outrora

Nao se realizou porque voce jurava que nao podia?
Tinha certeza de ate onde podia ir?
Voce e suas certezas...

Certamente espera a prova cabal da necessidade de ser
Pra ir muito alem do ensaio, ter gosto de vida na boca
Me diga, pois, qual a sua preferencia! O pessimismo hiperbolico? Ou um cínico eufemismo?

Sua existencia é minuto a minuto revogavel (um qualquer te mostra a saida)
Ha muito do que nao pode renunciar se aceitar o fardo de nao ser so lembranca
De que tamanho é a sua renúncia? Daquele que no seu lugar habita sombra
Olhe alem da mesmice pra ver que ali esperam qualquer contorno

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Poema anti prioritário

Deixemos que a hora passe
Façamos distraídos o nosso sossego
Tentando evitar o depois, o invocamos
Permitimo-nos esquecer que todo tempo passa

"Me vê uma dose do melhor passa tempo"
Daqueles que não façam pensar no que há de ser
Que me levem direto à porta da minha escravização
E lá, onde estiver, que eu deseje a próxima rotina
De modo que meu corpo, e só meu corpo, responda

Então, a vida é o conjunto de anti prioridades?
Me contentarei em ler um bom resumo
Um que me enumere quantas portas,sucessivamente, se abriram
E descreva o exato momento epifânico
No qual a frenética busca, finalmente, faz sentido

domingo, 29 de junho de 2008

Derradeiro suspiro poético

Jaz aqui a derradeira experiência versificada
Um suspiro de esperança na aventura humana
Antes que se cale o grito incorrigível

Há de se fazer notar a crença executora do hoje
Propulsora do pensamento poético alforriado
Categoria de contornos singulares materializados
por cada vislumbre de encontrar-me no seu espírito

O vento que sopra é de magnitude sustentável
Se necessário for, converte-se em brisa,
que de forma doce possa tocar seu rosto
Se em ferrugem as demandas se erguem,
que dizime todas as edificações inertes

O fim do ideal romântico submisso ao concreto
Musa forjada nos fragmentos dos dias
Indiferente a mórbida opacidade da perfeição
Manifestação autônoma das cores
as quais me saciam todo o entendimento